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Médicos do Trabalho estão preparados para atuar na Quarta Revolução Industrial?

Atualizado: 20 de Ago de 2018





O pai da Medicina do Trabalho, esculápio Bernardino Ramazzini (1633 – 1714) se surpreenderia muito com século XXI, caso vivo estivesse. O mundo em nada lembra o que ele viveu quando publicou a célebre obra “morbis artificum diatriba” (1700). O médico e professor de Pádua descreveu 54 tipos de ocupações, especialmente dedicando-se às intoxicações químicas e aos desconfortos do ambiente de trabalho. Mas sequer presenciou a primeira revolução industrial. E já estamos vivenciando a Quarta Revolução Industrial!


Especialistas dizem que o mundo como conhecemos está a ponto de mudar – principal e radicalmente o modo como produzimos e trabalhamos. E aí acrescento ao leitor: “… e como adoecemos”.


Ao leitor que por ventura estranhou ou mesmo reagiu com perplexidade ao convite para vivenciar a 4ª Revolução industrial (o que me causa muita reflexão como Médico do Trabalho e Advogado Trabalhista), permita-me apresentar brevemente cada período histórico.


A Primeira etapa da Revolução Industrial Entre 1760 a 1860, a Revolução Industrial ficou limitada, primeiramente, à Inglaterra. Houve o aparecimento de indústrias de tecidos de algodão, com o uso do tear mecânico. Nessa época o aprimoramento das máquinas a vapor contribuiu para a continuação da Revolução. Em suma, o ritmo de produção manual transmutou para mecanizada.


A Segunda Etapa da Revolução Industrial A segunda etapa ocorreu no período de 1860 a 1900, ao contrário da primeira fase, países como Alemanha, França, Rússia e Itália também se industrializaram. O emprego do aço, a utilização da energia elétrica e dos combustíveis derivados do petróleo, a invenção do motor a explosão, da locomotiva a vapor e o desenvolvimento de produtos químicos foram as principais inovações desse período. Tudo isto propiciou a manufatura em massa.


A Terceira Etapa da Revolução Industrial Alguns historiadores têm considerado os avanços tecnológicos do século XX e XXI como a terceira etapa da Revolução Industrial. O computador, o fax, a engenharia genética, o celular seriam algumas das inovações dessa época. A eletrônica e tecnologia das telecomunicações assumiram destaque.


Também chamada de 4.0, a revolução acontece após três processos históricos transformadores. Eis a pergunta: o que seria a Quarta Revolução Industrial? Ela é marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas. Envolve nanotecnologias, neurotecnologias, robôs, inteligência artificial, biotecnologia, sistemas de armazenamento de energia, drones e impressoras 3D.


A industrialização mudará de uma maneira radical e, com ela, o universo do emprego. Os “novos poderes” da transformação virão da engenharia genética e das neurotecnologias, duas áreas que parecem misteriosas e distantes para o cidadão comum.


No entanto, as repercussões impactarão em como somos e como nos relacionamos até nos lugares mais distantes do planeta: a revolução afetará o mercado de trabalho, o futuro do trabalho e a desigualdade de renda. Suas consequências impactarão a segurança geopolítica e o que é considerado ético.


A automatização acontece através de sistemas ciberfísicos, que foram possíveis graças à internet das coisas e à computação na nuvem. Os sistemas ciberfísicos, que combinam máquinas com processos digitais, são capazes de tomar decisões descentralizadas e de cooperar – entre eles e com humanos – mediante a internet das coisas.


O futuro do emprego será feito por vagas que não existem, em indústrias que usam tecnologias novas, em condições planetárias que nenhum ser humano já experimentou.


Elenco alguns exemplos práticos da nova revolução industrial em curso.


1 – Tecnologia da Informação:

Um dos grandes avanços nesta área está no desenvolvimento da Inteligência Artificial que possui o Watson como um grande exemplo.


Watson é um software de sistema de programação cognitiva. Na prática são diversas API’s (Application Programming Interface, em inglês) disponíveis de Watson e, com elas, você pode criar seus próprios programas, sistemas, aplicações cognitivas. Ou seja, toda a inteligência por trás do Watson está disponível para que desenvolvedores criem as mais incríveis aplicações em cima dela.


Tipos de uso de aplicações cognitivas incluem entender emoções, interpretar textos e imagens, dar respostas (como em chatbots, por exemplo), ouvir sons, dentre outros.


A diferença, que é fundamental, é o Watson ser uma plataforma cognitiva. O Watson tem a capacidade de aprender!


Você pode alimentar o Watson constantemente com novas informações e ele aprende com isso.

É aí que ele também se destaca ao que é normalmente conhecido como “inteligência artificial” (IA). Nem sempre quando as empresas falam que possuem soluções de inteligência artificial essas soluções são realmente inteligentes do ponto de vista de aprendizado. O Watson o é, e por isso falamos se tratar de uma solução cognitiva.


Aí você para e pensa…. Em que isto pode se aplicar na prática? Vejamos alguns exemplos em contexto do mercado de trabalho.


Você pode criar um sistema de aconselhamento legal com exatidão acima de 90% de acuidade nas respostas. Ou seja, consultorias jurídicas poderão ser realizadas sem a necessidade de se contratar escritórios. Será o fim das bancas?


Imagino que não, todavia serão menos advogados necessários para o mercado de trabalho. A advocacia que irá vigorar será a especializada.


Outra possível aplicação do Watson será na Medicina diagnóstica. Exames por imagem terão seu escrutínio pelo software, dispensando o médico Radiologista nos casos triviais.


Ao reconhecer imagens, o programa poderá ser extremamente útil para atividades típicas do Estado, como a polícia que pode identificar pessoas suspeitas e foragidas. Na China, os policiais já trabalham com óculos que identificam rostos de pessoas.


No setor bancário, poder-se-á pagar contas com digitalização de imagem de dedos ou mesmo com o escaneamento da retina. Algo mais seguro e customizado. Será dispensável a função do caixa executivo, da circulação do dinheiro real, de cartões de banco, senhas… Filas aguardando atendimento do bancário, clientes nervosos com senhas, dispêndio de tempo para ir à uma

agência física serão eventos estranhos de serem presenciados nas futuras gerações.


2 – Indústria Automobilística e energia:


Na Alemanha já começam a ser fabricados os primeiros veículos autônomos e elétricos. O que isto significa? Carros que dirigem sem a interferência do motorista. Sem a interferência do condutor (grande causador dos acidentes em nossas estradas, infelizmente), iremos vivenciar um trânsito com menos sinistralidades. E, por conseguinte, menos seguros serão contratados. Impactante para as companhias de seguro que terão menos contratos firmados e à valores menores.


Os carros elétricos trarão benefícios adicionais. Será menos ruído envolvido, eletricidade mais barata, uma vez que a energia solar deverá ser empregada em maior escala. A mudança no padrão de consumo de energia levará ao remodelamento de atividades econômicas produtoras de energia. Atividades como a mineração do carvão certamente irão reduzir e poupar os nossos recursos naturais. Em sentido mais amplo, tecnologias de dessalinização da água possibilitarão água potável abundante e barata e reduzirão a pressão do exaurimento das fontes de água doce, nascentes e aquíferos.


3 – Medicina:

Tecnologias do tipo “Try code” deverão cada vez mais implementadas e o paciente terá um monitoramento de seus dados vitais realizados em tempo real e encaminhados ao médico.


Já há centenas de biomarcadores criados que poderão ser monitorados pelo próprio paciente através da coleta de seu material biológico. Estes biomarcadores podem indicar processos neoplásicos e inflamatórios de forma prática e objetiva, facilitando diagnósticos.


Haverá uma mudança no mercado de trabalho médico. Aquela figura do médico tradicional “de estetoscópio ao redor do pescoço” deverá ser substituída por um profissional com “o smartfone na mão” interpretando uma série de resultados de seu paciente…


4 – Impressão 3D nas indústrias:

A indústria de calçados e roupas terão sensível mudança em virtude das tecnologias. Se antes era produzido uma série de produtos padronizados de tamanho e numeração, agora o escaneamento de imagens feitas por um smartfone de um cliente levará à customização de produtos e evitando desperdício de matérias primas. Muitos trabalhadores desta indústria tradicional seriam dispensáveis pois a execução destas atividades podem ser feitas por robôs.


Para se ter uma idéia, a China já construiu o primeiro prédio do mundo por meio de uma impressora 3 D. As estruturas foram produzidas por um equipamento em larga escala para a montagem final do prédio de cinco andares com apartamentos. Um dos fatores interessantes é que se utilizou também materiais reciclados para preparar a “massa” utilizada na impressão dos grandes blocos em 3D. Dentre eles estão uma mistura de solo e resíduos de construções industriais, como o vidro, que são adicionados em uma base de cimento com secagem rápida.


Para finalizar, é incrementada uma substância que funciona como endurecedor especial, para que as peças possam ser manipuladas e montadas com maior velocidade. As paredes impressas em 3D são ocas e a massa foi aplicada em formato de zigue-zague, deixando espaço para o isolamento interno. Tudo isso pode baratear as construções civis, já que além de utilizar material reciclado, deixando a matéria-prima mais acessível, a montagem pode ser até 70% mais rápida.


Para concluir deixo a reflexão. Profissionais em saúde e segurança do trabalho (SST) que elaboram PPRA e PCMSO elencando os tradicionais riscos ocupacionais (físico, químico, biológico, ergonômico) não deverão cada vez mais debruçar-se sobre os riscos Psicossociais? O que a quarta revolução industrial trará? Envolverá falta de participação na tomada de decisões que afetam o trabalhador e falta de controle sobre a forma como executa o trabalho?; má gestão de mudanças organizacionais e insegurança laboral?; comunicação ineficaz (apesar de todo o aparato tecnológico!) e falta de apoio da parte de chefias e colegas? ; exigências contraditórias e falta de clareza na definição das funções?; cargas de trabalho excessivas e assédio psicológico

ou sexual, violência de terceiros?


Terá o Médico do Trabalho função ímpar e de liderança na gestão de pessoas? São questionamentos que deixo ao leitor refletir.


Um grande abraço a todos!


Referências: http://www.bbc.com/portuguese/geral-37658309 https://www.ibm.com/blogs/digital-transformation/br-pt/o-que-e-watson-plataforma-cognitiva-inteligencia-artificial-robo/


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